terça-feira, fevereiro 09, 2010

100 Anos - Tomo I

Nota: Para quem quiser ler o Tomo I completo, sem ter de fazer buscas no blog, torno a publicá-lo para maior facilidade na leitura da continuação da história.

Sentados no bosque, namoravam através do olhar.
Cada olhar representava uma prova de amor.
O jovem mortal sorria embevecido por a sua apaixonada, a Fada Adrianna, lhe soprar um beijo para a face corada de tanta paixão.
Enquanto as Fadas amigas beijavam as folhas que, envergonhadas, mudavam de cor e caiam de amores, eles jantavam com a Madrinha, Rainha dos Bosques, Senhora dos Ares, Dona do Fogo, Amante da Terra e Submissa à Água, onde vivia o seu amor, o Rei dos Oceanos.
Era o dia de apresentação do casal aos quatro elementos da natureza.
Ele, um simples mortal, que aos olhos da fada sua apaixonada era um príncipe belo e encantado, apaixonara-se por aquela figura frágil e encantadora que estava à sua frente. Ela, uma fada de outra dimensão que não a dos mortais, enamorara-se por aquele jovem, mortal mas tão diferente dos seus semelhantes.
Tão gracioso e apaixonado por ela, que era capaz de perder as asas por ele.
A Rainha, inicialmente, não concordara com aquela união, mas após ver que ambos estavam, literalmente, morrendo de amor, paixão e desejo, acabou por aceder a uni-los para todo o sempre.
Após aquele jantar, Fada e Mortal, através dos poderes encantatórios da Rainha Laureanna, seriam o uno e indivisível.
Dois seres, que de tão diferentes se completavam.
Passariam a ser a Energia mais Pura.
A Energia que fazia movimentar o Universo.
Passariam a fazer parte integrante do Universo.
Com a benção dos Quatro Elementos Sagrados passariam a ser... Amor.

O momento chegara.
De mãos dadas frente a um altar de flores em todas as cores e folhas de todos os tamanhos, olhavam para a Fada Rainha, Madrinha da Natureza, esperando a sua benção para serem transformados no mais puro que há na energia que move o Universo.
Mas vindo das sombras, sorrateiramente, um vulto aproximou-se, fazendo com que os céus se silenciassem e as nuvens parassem de dançar.
- Que queres daqui, Diávolla? Não foste convidada para a Cerimónia! O teu lugar não é no Reino de Luz!
- Sim! Não me convidaram, mas, presumi, que tivesse havido um extravio qualquer! Não queria perder isto por nada dos Reinos Mágicos! Mas não te preocupes. Vou ficar apenas o tempo suficiente para dar os meus parabéns à querida fada Adrianna! E algo que ninguém esquecerá.
Entretanto, ao jovem mortal apenas chegava aos ouvidos o som de notas musicais que lhe inebriavam os sentidos, em vez da voz de Diávolla! Possuído por uma vontade mais forte do que lhe ditava o coração, largou a mão de Adrianna e dirigiu-se a Diávolla.
Os seres da floresta ficaram chocados ao verem o mortal beijar languidamente Diávolla. Após o beijo deram as mãos e correram em direcção ao negro verde da vegetação densa.
- Maldita!!!!!!!!! Que vieste trazer para o nosso seio a tristeza e desgraça!!!!
E de dentro da floresta ainda se ouviu a voz de Diávolla respondendo:
- Nada, querida irmã, que não me tivesses feito no passado. Nada que não me tivesses feito.
E ainda rodeada de incredulidade e desgosto, Laureanna viu, mesmo à sua frente, Adrianna perder as suas frágeis asas e cair morta no chão coberto de ervas.
O Amor tinha morrido...O Reino de Luz estava de luto...

Seráfico, observava o vazio interior que o assolava. Apenas se recordava tenuemente de uma vida anterior.
Espasmos de estranhas recordações que não compreendia, afloravam a sua despida mente.
Diávolla deitava-se a seu lado e anichava-se de encontro ao seu corpo pálido e exangue. Apenas se sentia preenchido quando ela chegava.
Preenchido, mas vazio ao mesmo tempo!
- És meu. Todo meu. Acabei por conseguir.
Não sabia do que ela falava. Não compreendia o que ela dizia. Não se recordava do seu nome.
Não se recordava de nada. A não ser de um azul, branco, mil cores, brilhante, transparente, de umas asas tecidas como que em seda!
E quando se lembrava dessa estranha recordação... sentia-se feliz.
Porquê? Não o sabia. Talvez nunca o viesse a saber.
Deu-lhe a beber um liquido quente e doce que ele sorveu com prazer até à última gota. Liquido de uma cor quente, escura, forte...
Nunca tinha sentido um sabor como aquele.
Será que sentiu algum sabor antes?
Será que iria sentir outro sabor depois?
Moveu-se sentindo todos os ossos do seu corpo estalarem, mas, estranhamente, não sentia dor...
Lá fora a neve caia, branca, queimando uma paisagem agreste e despida, mas estranhamente, não sentia frio...
A lareira crepitava de cores quentes e convidativas, mas, estranhamente, não sentia calor...
Estranhamente, nada sentia......
a não ser aquele doce sabor na boca, que parecia dizer-lhe
- ...Mais, dá-me Mais... -
...aquele doce sabor a Sangue...

Deitada num leito de ervas, jaz o corpo de Adrianna.
A seu lado as asas ainda belas e brilhantes perdiam o seu vigor e beleza, a cada momento que passava.
- Não é a primeira vez que alguém morre de amor no Reino de Luz! E não será a última vez que recuperará do mal de amor.
Laureanna fazia bailar, nas suas longas mãos, ingredientes da Natureza para elaborar um elixir que traria de volta Adrianna ao mundo da Luz.
A sua alma neste momento andava perdida e confusa no Limbo.
Entre a Luz e a escuridão.
Mas Laureanna, com toda a sapiência dos sete mundos a tentaria trazer de volta.
Para fazer renascer o Amor.
O mais difícil seria recuperar o mortal.
Já não era a primeira vez que tinha assistido a tal.
Apanhado na teia de sons melodiosos e doces que Diávolla lhe urdiu, o mortal sucumbiu ao seu doce encanto, renegando o que lhe ditava o coração.
Neste momento já deveria ser uma mera marioneta nas suas mãos.
A única esperança que tinha, seria a de que Diávolla estivesse, também, apaixonada por ele.
Aí não lhe teria morto a alma.
Mas, de qualquer modo, o preço a pagar... seria sempre muito alto.

O perfume que a neve exalava, inebriava Laureanna. Por detrás da bela e graciosa Cascata de Urtigas das Fadas, encontrava-se uma gruta, inacessível e desconhecida a quase todos. Apenas os Grandes Iniciados tinham o direito de lá entrar. Ao cruzar a sua entrada deparou-se-lhe um túnel fundo e negro que ia em direcção às profundezas da Terra. Iluminada por pequenos pirilampos que a acompanhavam, seguia em direcção ao seu destino. Em breve viu uma luz, cada vez mais forte, que irradiava calma e bem estar. Minutos depois chegou a uma grande sala esculpida na pedra pela própria natureza. No centro, imponentes e majestosos, os maiores cristais jamais vistos! Uma autêntica Floresta de Cristais Gigantes começava naquela sala natural perdendo-se de vista! Era um lugar para além da imaginação! Até para a própria Rainha das Fadas! Encontrava-se no Coração do Berço das Fadas!
Aproximando-se podia ver, brotando de cada cristal, um pequeno ser frágil e minúsculo. Dentro em breve nasceriam novos seres alados. Novas fadinhas para inundar o Reino de Luz com a sua vida e magia.
Sentou-se próxima dos cristais e deitou um liquido espesso e gelatinoso numa tigela que trazia. O liquido, com a presença dos cristais, começou de imediato a borbulhar tornando-se mais aquoso e brilhante até adquirir uma luminescência própria.
Sorriu para si e pensou: Estou preparada.

Pegou-lhe delicadamente na mão longa, branca e suave.
As veias verdes e azuis, viam-se pela transparência de sua pele.
Das asas apenas sobrava pó.
Pó de Fada.
Limpou-o para uma folha e deitou-o dentro do elixir.
Misturou muito bem e deixou em repouso.
Sentada a seu lado, acariciou-lhe os belos cabelos negros de azeviche.
Sorriu. Recordou-se como se tivesse sido ontem quando a foi buscar ao Berço das Fadas.
Esperara cá fora, conforme está estipulado, e uma Hamadríade trouxe-lha.
Cabia inteira na palma de sua mão.
Sorria. Um sorriso tão belo. Do tamanho do mundo.
Sempre fora a sua favorita. Ensinou-lhe tudo o que sabia.
Preparara-a para a substituir.
O fim do seu tempo, provavelmente, estaria próximo.
Foi um choque enorme ao saber que se apaixonara por um vulgar mortal.
Não estava preparada para esse choque.
Custou-lhe muito, mas acabou por aceitar o destino. Tinha perdido Adrianna.
Mas nunca pensara que a podia perder daquela maneira. Havia a possibilidade de a fazer voltar, mas era preciso que ela quisesse.
Com os sonhos desfeitos, não sabia se voltaria para o Reino de Luz.
Já não tinha quem amava para se poder dar.

A princípio, uma brisa roçou-lhe levemente os cabelos.
Olhou para a janela com vidros brancos transparentes de gelo e falou. Palavras que nenhum humano concebeu. Que nenhum ser vivo ouviu.
Completamente nua, deitada num tapete de urze, repousava o corpo inerte e sem vida de Adrianna.
Lá fora, levantara-se com o vento, um som, a princípio inaudível ao ouvido do ser humano, que se tornou cada vez mais alto, intenso, assustador.
Um grito, um urro, sem tempo, sem fim, sem definição, invadiu o mundo dos vivos, com a natureza, a mente de cada Homem.
Os vivos recolheram a suas casas, benzeram-se, penduraram crucifixos e rezaram pelas suas almas.
Laureanna de azul sacerdotal evocara as almas antigas.
Nuvens cobriram a lua e o céu, lançando sombras negras e profundas sobre o gelo branco que inundava os campos.
Laureanna com uma alegria reprimida, abriu seus braços e deixou cair o manto, ficando com o seu gracioso e elegante corpo, nu. Emanava uma radiância áurea produzindo uma imagem de beleza arrebatadora!
Bebeu o elixir derramando, sobre o corpo de Adrianna, o pouco que sobrou. Lá fora, espíritos da tempestade descarregavam a sua força contra a terra frágil e já queimada pelos gelos.
Deitou-se sobre a frágil Adrianna dando-lhe o seu calor.
Fadas das nuvens dançavam no coração da tempestade e Espíritos das árvores batiam fortemente sobre a Terra.
Laureanna envolveu com seu corpo e suas asas, Adrianna, dando-lhe um beijo quente, lânguido com sabor a mel de urze e rosmaninho, arrebatando das suas entranhas o sabor da morte que a levara, dando-lhe o sopro da chama da vida.
Música suave subiu da terra e o urro selvático e arrebatador desapareceu.
Asas grandes, transparentes, poderosas, emergiram do corpo de Adrianna, que ao abrir seus olhos cor de malva, brilharam com todas as cores do arco-íris.
- Estou pronta.
Ambas sorriram.
E a Terra estremeceu…

A Raiva, o Desgosto, a Angústia, o Desespero, a Saudade, a Ansiedade, a Desilusão, a Tristeza.
Tudo ficou na forma de uma pequena bola de luz violácea que foi guardada no seu coração!
Raiva por não ter podido fazer nada no momento que lhe arrebataram o amor do coração.
Desgosto por vê-lo partir agarrado a outra, mesmo sabendo que não fora sua culpa.
Angustia por saber que o perdera para a eternidade.
Desespero por saber que nada podia fazer no momento.
Saudade porque ele já estava longe há tempo demais.
Ansiedade por o querer tornar a abraçar, beijar, agarrar, arranhar, morder, amar…
Desilusão por saber que não voltaria a amar alguém como o amou a ele.
Tristeza porque seu coração de mil cores se tornou cinzento e vazio.
Por mais que o amor cruzasse a sua vida, nunca mais olharia para ele.
A cor de sua vida partiu agarrada àquele mortal que tanto amara.

Era um dia de amor e cor como muitos outros no Reino de Luz.
Enquanto brincava com suas irmãs montando Dentes-de-Leão, viu uma brecha de luz no ar envolvente.
Resolveu aproximar-se e espreitar.
Adrianna viu um mundo em todo igual ao que vivia. Só que com algumas diferenças.
O céu não era tão brilhante, os campos não eram tão verdes e os seres não eram tão alegres.
Todos os pequenos animais que a viram se esconderam.
Menos aquele ser grande, esguio e belo.
Olhava para ela com uns olhos do tamanho do mundo.
E nesse momento soube o que era o Amor.
Nesse momento reconheceu o seu futuro.
E esqueceu-se de quem era.
Foi recíproco. E a partir daí todos os momentos que podiam, voltavam para aquele cantinho do bosque para passarem pelo Portal Encantado e ficarem juntos.
Juntos, abraçados, amando pelo chão, cobertos de pequenas ervas.
E rindo. Rindo muito.
Como se não houvesse amanhã…

Os dias passavam céleres e inexoravelmente lentos.
Noutras épocas seria um dia de festa, mas hoje não lhe apetecia celebrar.
Fazia hoje, mais um ano em que Laureanna nascera.
Lá longe, das velhas terras da Europa, no coração de África, Laureanna tinha acordado para a vida.
Tinha sido a última, juntamente com sua irmã, das Fadas da velha, quente e doce África.
As memórias do Homem e da Natureza apagaram para sempre a presença de tão belas criaturas no Continente Mãe.
Fortes perturbações e turbulências fizeram com que ambas tivessem de fugir do Reino da Natureza Selvagem, acabando por se refugiar, com a ajuda de Neptuno, Rei e Senhor dos Mares, na Velha Europa.
Foi aí que o conhecera, àquele velho e louco amor impossível.
Tinha o nome dele cravado no coração.
Neptuno.
Apenas o via de tempos a tempos, mas quando estava presente, afogavam em paixão e loucura, todos os dias de separação e ausência.
Adrianna deu-lhe a mão e sorriu fazendo-a acordar dos seus pensamentos
Encontravam-se na Clareira do Velho Carvalho, onde era sempre Primavera, graças aos Espíritos Superiores do Tempo, observando distraidamente um carreiro de pequenas formigas que labutavam pela vida.
Bastava dar dez passos e encontravam-se novamente no Gelo do Inverno.
Subitamente, vindo com os ventos, viram-se rodeadas de milhares de pétalas de todas as cores!
Fadas e Elfos apareceram de todos os lados, vestindo as suas melhores folhas e flores!
Todos cantavam belas canções e poemas à Fada Rainha Mãe.
Pequenos animais da floresta carregavam belas e singelas prendas para ofertar Laureanna.
Estavam lá, vindos de todos os cantos do Reino de Luz, Fadas da Floresta, das Nuvens, dos Lagos, das Montanhas, Elfos, Unicórnios, Faunos, Gnomos, Centauros e muitas outras criaturas.
Sete pratos foram servidos, sete canções foram cantadas, sete poemas foram ditos, sete beijos foram dados, sete danças foram tocadas.
Tudo para saudar e celebrar o nascimento de Laureanna.
Laureanna parecia que tinha perdido o dom da audição, tão inundado estava o seu cérebro, de alegria.
Mas não tinha perdido o outro dom.
Mais importante para ela.
O dom de ver quem a amava...
Estava entre os seus...
PARABÉNS, LAUREANNA.
O Reino de Luz te saúda.

No Reino da Luz Negra não havia celebrações profanas.
Apenas se ouvia o barulho da neve a cair, pesada, sobre a paisagem.
Apenas o som do vento a chorar.
Apenas o barulho da morte a rondar.
Diávolla, de olhar vazio, observava.
Também era o seu aniversário.
Não lhe dizia muito, o evento.
A suposta celebração.
Não havia nada a celebrar.
O quê? O ter nascido numa terra onde ela e suas irmãs já não existiam?
Numa terra de onde tiveram de fugir?
Para um continente que nada lhe dizia?
De olhar vazio, observava o passado!
Lágrimas negras, de cristal escorreram-lhe pela face!
Não soube a razão!

- Quem precisa de festas, se te tenho a ti?
E dito isto, colocou o seu vestido, entretecido a teias, para baixo.
Segurou o mortal, suavemente, pelo braço e deu-lhe a provar um beijo doce e embriagador.
Tonto, sentiu um brutal desejo de a possuir.
Começou a apertar o seu corpo de fada, de encontro ao seu, sentindo todas as suas curvas, linhas, saliências, explorando os seus seios, o ventre, com as mãos!
Aquela pele sensível e frágil, ficava cravada com a marca dos seus dedos másculos, por todo o corpo.
Tomada por um desejo e uma vontade de luxúria extrema, Diávolla arrancou-lhe a roupa fazendo com que todos os botões se despregassem e caíssem ao chão, criando notas musicais que se perdiam no ar.
Ela apertava, cada vez mais, as suas carnes, que, a princípio, possuíam uma consistência elástica. E iam enrubescendo, endurecendo nas suas mãos, nos seus longos e experimentados dedos.
Deixaram-se cair sobre uma cama de folhas e envolveu a sua cabeça com as pernas, deixando-o percorrer o seu corpo com a língua, quente, doce, inebriante, deixando-a cada vez mais louca.
Ele, louco de prazer, sentia um sabor a fruta acabada de colher ao lamber o seu corpo, a sua pele, os seus segredos.
Enquanto a possuía, ouvia aquelas asas de fada, produzir um zumbido baixo e monocórdico que atordoavam os sentidos.
Só se recordava, antes de em uníssono, alcançarem o prazer, se ver cercado de pequenas luzes e sentir-se a ser levantado nos ares.
Depois, desfaleceu…

Estava uma gélida noite.
Os guardas do reino da Luz Negra dormitavam nos seus postos.
Guerreiros Goblin, recrutados por Diávolla para defender o castelo!
Eram temidos nos Sete Reinos. Conhecidos pela sua ferocidade e audácia, tinham um grande defeito. A preguiça.
Em épocas de maior ócio adoravam dormitar onde quer que fosse!
Foi o seu erro.
Sem esperar, uma horda de centauros, faunos e pequenas criaturas da floresta, guiados por fadas fogo-fátuo, caíram-lhes em cima, aniquilando-os numa questão de segundos.
Comandados por Laureanna, secundada por Adrianna, foi uma brincadeira de crianças, a tomada do Castelo Imperial!
Adrianna, mal se encontrou dentro do Castelo correu para os aposentos imperiais.
Os guardas já tinham sido dominados e os faunos aguardavam ordens para entrar no Quarto principal.
Adrianna pediu para aguardarem e ficou a ouvir.
Lá de dentro vinham gemidos intensos, de prazer!
Não conseguindo esperar mais, abriu as portas de par em par, já esperando o que iria ver.
Num dossel negro, imponente, de ébano polido, encontrava-se dois corpos que se exploravam avidamente. Como animais em época do cio.
Teve dificuldade em o reconhecer, mas era ele! O mortal que seu coração tanto ansiava, rodeado pelo corpo, pelos braços, pernas, seios, nádegas, de Diávolla!
Ambos culminavam, após uma louca noite de prazer, num orgasmo brutal e intenso!!!!
E através da gélida luz, as pedras fizeram chorar os mortos, com a saudade que Adrianna tinha entranhada na alma!

Com um gesto rápido, mandou avançar os fogo fátuos!
Rodearam os dois corpos que, nem se aperceberam das suas presenças.
Elevaram-nos nos ares no momento final do culminar do prazer.
E envolvidos em pó mágico, adormeceram!
Diávolla, como punição eterna, foi relegada ao Terceiro Mundo.
O Reino das Trevas, onde qualquer mortal pereceria nos primeiros momentos.
O Reino das Almas Penadas.
O mundo do castigo e punição. Não havia maneira de escapar de lá.
Teve essa punição, não por ter enfeitiçado o pobre mortal, mas por Laureanna ter descoberto no Castelo, um plano para dominar o Reino da Luz.
Diávolla pretendia a sua morte, para ser Rainha e Senhora dos Dois Reinos!
Por isso, teve uma punição severa!
Ainda ponderaram matá-la, espalhando partes do seu corpo pelos Sete Reinos, como exemplo!
Mas Adrianna pediu que não fossem cruéis. Senão desceriam a um nível não permitido pela Natureza.
Por isso, apenas lhe arrancaram as belas e frágeis asas negras antes de a enviarem por um Portal que foi, de imediato, selado.
Quanto ao mortal, enlouquecido na alma, não era o mesmo homem doce e terno que Adrianna conhecera.
Diávolla tinha-o transformado num ser monstruoso, sequioso de carne e sangue.
Preso pelos membros, olhava Adrianna, como se observasse um naco em sangue, fresco.
Laureanna sabia que só havia uma maneira de o salvar.
Mas era impossível de acontecer.
A não ser que Adrianna cometesse uma loucura!



Pediu para ficar a sós com ele.
O Centauro, que guardava a cabana da floresta, assentiu e retirou-se.
Entrou.
A cabana estava iluminada pela brilho encantatório das sete correntes douradas!
Correntes que aprisionavam os seres que as fadas consideravam perigosos.
Sete correntes douradas. Quatro para os membros, braços e pernas. Uma para o cérebro, outra para o coração e a última para a alma!
Era assim que estava o mortal. A fera. O ser, meio mortal, meio fera, que Diávolla tinha criado para seu bel-prazer e entretenimento.
Não poderia ser liberto. Apenas quem tinha poder para tal era a rainha Suprema, ou alguém que lhe tivesse um grande amor!
Adrianna aproximou-se e chamou-o.
Bruscamente, virou-se para ela, cravando-lhe o olhar de besta, não dando sinal de a reconhecer.

Laureanna recebia os lideres dos Povos da Floresta.
Era quase chegada a hora da Grande Festa.
Da celebração do Solstício de Inverno.
A época em que os mortais chamavam de Natal.
Tradição tão antiga, como os Antigos, que os mortais, adoradores do Deus morto, adaptaram às suas tradições, adulterando a razão e motivo dos festejos.
Achou estranho que Adrianna não estivesse presente.
De repente, teve um pressentimento! Um mau pressentimento!

A besta olhava para ela, sequioso de lhe tocar. De beber o seu sangue!
Seu sangue mágico de fada!
Adrianna aproximou-se. Sabia o que tinha a fazer!
Tocou nas correntes que lhe prendiam os membros inferiores... e caíram!
Tocou na corrente que lhe prendia o cérebro... e caiu!
Tocou na corrente que lhe prendia o coração... e caiu!
Tocou na corrente que lhe prendia a alma... e caiu!
Tocou nas correntes que lhe prendiam os membros superiores... e caíram!
Um urro selvagem, de contentamento, saiu do mais fundo do seu ser, lançando-se de imediato para cima de Adrianna, que, abrindo os braços, o recebeu de encontro ao seu frágil corpo!

Laureanna, secundada por dois centauros armados, irrompeu pela Cabana adentro!
Mas já era tarde demais.
Sobre o seu corpo, a besta mortal, sugava avidamente o sangue real verde esmeralda da fada Adrianna.
Ainda tentaram separá-los, mas já era tarde.
Adrianna caiu sem vida, seu corpo tornou-se em cortiça, e a besta tomou as feições de mortal.
O sangue divino da fada retirou-lhe a maldição, voltando a ser o que era.
Vendo o que fez, caiu de joelhos, lançando do mais fundo do seu ser, um grito que em tudo ombreava com os urros que dava quando era uma Besta enfeitiçada!
Só teve tempo de agarrar o corpo encortiçado de Adrianna antes de levar uma pancada na cabeça, que o fez desmaiar!

Comemoravam o Solstício de Inverno.
A vitória da Luz sobre a escuridão.
A chegada do dia, que se interpõe à Noite.
Os dias maiores, radiosos, cheios de encantos, em que pequena fadas se fundem com mariposas e borboletas.
O mortal, de coração destruído, com a alma atormentada de desgosto e remorso, esperava a sua sentença no meio da Clareira do Velho Carvalho.
Laureanna, olhos calmos e serenos, observava-o.
Dentro de si, sentia pena, tristeza por aquela criatura.
Tudo o que ele queria era amar.
Simplesmente amar.
E perdeu tudo.
Sem culpa. Ela sabia-o. Mas pela lei, deveria pagar pela morte de uma das nobres criaturas do Reino de Luz.
Pela morte de Adrianna.
Pelo seu sacrifício.
Rodeada por todos os seres do Reino de Luz e pelos representantes dos Sete Reinos, proferiu a sentença.
- Mortal!
Inicialmente, quando Adrianna o pediu, opus-me ao vosso enlace. Mas depois de ver que o vosso amor era puro, quem era eu, para recusar tal?!
Recebi-vos no meu regaço e abençoei o vosso amor.
Mas isso levou-te a um lugar que nenhum de nós queria.
Foste usado pela minha cruel e louca irmã.
Foste enfeitiçado e com isso destruíste… o que mais amavas.
Tornaste-te num ser hediondo que só deixou de existir graças ao amor que Adrianna tinha por ti!
Sei que o sabes, mas não é demais recordar-to.
Não tiveste culpa. O teu coração, a tua alma, são fracos. És um mortal, simplesmente.
Mas pela Lei Universal que rege a Natureza, violaste o que de mais sagrado há.
Puseste fim à vida de um ser inocente.
Por isso tens de ser punido!
Vê-de!
Estamos em época de festa. Eis chegada a época do solstício de Inverno.
Em tempos, os vossos festejavam connosco, o nascimento do sol, a vitória da Luz sobre as Trevas.
Mas com a chegada do Deus do Amor, que vós, tiveram o cuidado de matar, passando a adorá-lo como um Deus Morto…
após a sua vinda, após a sua partida, séculos depois, transformaram todo um ritual, uma tradição, num Teatro Sagrado e ao mesmo tempo profano, a que chamaram de… Natal!
Com isso, afastaram-se cada vez mais de nós, deixando simplesmente, de acreditar na nossa existência.
O teu castigo não será tão pesado, como deveria ser, por diversas razões.
Uma delas, todos nós sabemos, era o amor que comandava o teu mortal coração.
Outra, e não menos importante, é que tu como mortal, não nos deverias ver!
Nunca!
Mas tens esse dom!
Conseguiste visualizar uma brecha espacio-temporal.
E graças a ela, conheceste Adrianna.
E isso é muito importante para nós.
Mostra que ainda existe homens com o sangue dos Antigos.
Homens com sangue de Fada, de Elfo, das Criaturas Encantadas.
E isso demonstra que ainda não estão totalmente perdidos!
Mortal. Imortal serás. Mas apenas por um cento de anos.
Caminharás pelo mundo, com saudades de quem amavas.
Voltarás ao passado um cento de anos e sofrerás até ver chegar a hora a que deverias ter nascido.
Aí, sofrerás pelo dobro.
Teus avós, teus pais, teus irmãos, nunca te conhecerão, porque simplesmente não nasceste.
Ir-te-ás cruzar com eles se for a tua vontade.
Poderás amá-los como filho, mas para eles nunca passarás de um estranho que lhes tem carinho e amor.
Verás sombras e silhuetas de quem seriam os teus filhos, se tivesses vivido uma vida normal de mortal.
Será esse o teu castigo.
O amor, se voltares a encontrá-lo estará sempre em destinos cruzados.
Nunca serás verdadeiramente feliz.
E chegada a hora que estaria marcada para ti, morrerás.
Aí terás o teu perdão, porque a tua alma, sofredora e atormentada, irá para o reino do Além, o Sexto Reino. O Reino dos Sentidos.
E nele encontrarás a chama de Adrianna aguardando por ti.
Essa será a minha dádiva, a minha prenda, para ti e para o teu amor. Para o teu grande amor.
Por Janus, o Deus Sol e pela Grande Deusa, ide, mortal, imortal.
Cruza aquele Portal que se abre e vive o que tens a viver.
Porque nada, durante cem anos, te fará mal, a não ser a dor de alma e o sofrimento do amor.
Adeus…

22 comentários:

Teresa Durães disse...

o sofrimento pelo amor é já uma grande tortura...

O Profeta disse...

As cores que reténs em tua alma
Entraram pelo coração
São luzeiros em céu nocturno
A força de uma oração

Vês com o sentir do sonho esquecido
Com mãos esculpindo o encanto
Às vezes elas ficam presas
Às águas que brotam do pranto


Boa semana


Abraço

Menina do Rio disse...

A dor da alma não tem cura...

Beijinhos

Katia Ribeiro disse...

Perfeito!

Rafeiro Perfumado disse...

Roderick, fui acompanhando esta história e conheço-a minimamente. Está muito bem escrita, num estilo que gosto e sobre um tema que me seduz, mas deixo-te um conselho: publicar um texto com este tamanho, na blogosfera, não surte efeito, e poucos serão os que realmente irão ler até ao fim.

Abraço!

PS: gostei do pormenor sádico "apenas lhe arrancaram as belas e frágeis asas negras"

Roderick disse...

Teresa- Acho que todos nós, mais cedo ou mais tarde passamos por uma fase dessas. E como se sofre.

Roderick disse...

Profeta - cinco estrelas, como sempre.
Boa semana para ti também

Roderick disse...

Menina do Rio, agora já entendeste a história?

Roderick disse...

Katia Ribeiro, a perfeição não existe. É uma utopia!

Roderick disse...

Rafeiro, eu sei. mas houve pessoal que me pediu o início e para não enviar por email ou explicar como ler, resolvi colocar assim! mas depois é para retirar novamente.
Abraços e bom fim de semana

Fa menor disse...

Vou copiar para ler depois...
sorry... é enorme!

Bjs

Fred disse...

Eu não conhecia a história, o texto é extenso mas, fui me envolvendo que quando acabei de ler queria mais...Ah sobre o calor, estou a focar no inverno. Ele virá, esperança coragem e fé.

Abraços!

Roderick disse...

Fa Menor: É só a primeira parte. Boa leitura|

Roderick disse...

Fred, leste e gostaste?? Obrigado. A continuação virá aos poucos!

Philip Rangel disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Philip Rangel disse...

Demorei mais de 15 m lendo o seu texto mas vi essa historia de amor.......qndo nos sofremos por qm amamos.....

excelente...

Laura disse...

Desculpa, moço, ahhh, mas só li até à morte da Adrianna, bolas, achas que os outros lêm até ao fim..devias por aquilo em 10 actos, ehhhhhh, e lá and a diávola e todos os mortais ou enterrados ehhhhh. credo. Haja calma, juro que ja na tinha apchorra pra ler tanto..podias fazer um livro com isso e mandar traduzido em Inglês, pá www.lulu com ficavas rico meu irmão...beijinho, não leves a mal, mas é muita letra pra hoje..ahhhh laura..

Laura disse...

Xi, meus joelhos tremem de tanto descer e agora terei de subir, mas, começa a colocar a historia por etapas e daria para postes de uma semana..não vês que estão todos cansados de tanto ler? ehhhhhhh...rapaz..onde andas, onde estás e que tens feito? nada? beijinhos.

Ana Paula disse...

Parabéns pela escrita! Parabéns pela história! Pelo que pude acompanhar, o seu simbolismo é muito rico.

Nota máxima para a imagem/pintura no topo do seu blog: adorei! E parabéns à autora (sua) :)

Roderick disse...

Philip, não é bem de amor, é mais de desamor. Abraços

Roderick disse...

Laura, é a história que já tinha publicado. Beijos

Roderick disse...

Ana Paula, obrigado. E... bem vinda!