terça-feira, fevereiro 09, 2010

Tentação (XX)

(...)

Nesse instante uma estrela riscou o céu e estranhamente ficou a pairar por cima da gruta.
A suposta estrela libertava uma luz que acalmou os animais e a eles próprios.
A loucura de Joseph desapareceu por milagre!
Mas agora tinha receio que aquela luz atraísse visitantes indesejados.
Entretanto uma caravana passava à entrada da gruta. Joseph ficou assustado.
Das sombras observou a pequena multidão nas carroças.
Nenhum deles parecia se aperceber da luz!
Da estrela!
Era um sinal de Deus, Joseph soube-o naquele momento.
Era um sinal de Luz.
Entretanto no cimo da gruta o Anjo Alado tudo observava, emitindo uma luz calma e relaxante para que se sentissem confortáveis. Parecia uma estrela, tal o seu brilho!

(...)

Tentação (X IX)

(...)

Chegaram a uma gruta. Um local escuro e húmido que era usado por algum pastor para guardar os seus animais.
Desviou as pedras que tapavam o caminho e entrou com Mariah e o jumento que a transportava.
Fez uma cama com o feno que estava guardado no fundo da gruta.
Alguns animais que lá se encontravam remexiam-se e emitiam ruídos de incómodo e de receio por causa da presença daqueles estranhos!
A noite continuava iluminada.
Ele tinha de fazer o parto com o pouco que tinha à mão.
Já tinha observado como se procedia. Mas como homem nunca o tinha feito.
Mas sabia que Deus não o deixaria mal.
Mariah adormeceu, cansada da viagem.
Enquanto a observava muita coisa lhe passou pela cabeça.
Tinha ali a oportunidade de se livrar daquele incómodo. De um filho que na verdade não era seu.
Da vergonha que seria se alguém descobrisse que a criança não era da sua carne. Mesmo sabendo que era Filho de Deus. Mesmo sabendo que poderia ser castigado para toda a eternidade só por ter aquelas imagens na sua mente!
Ninguém sabia que estavam ali. Ninguém iria saber que teria sido ele a matar Mariah e o rebento que ela carregava.
Enquanto tinha esses pensamentos impuros, instintivamente sua mão agarrara uma pedra.
A loucura estava a tomar conta dele!

(...)

Tentação (XVIII)

(...) A caminhada já ia longa.
Apenas viajavam de noite para que ninguém desse por eles. Além de que de noite era mais ameno.
Joseph, dado o seu trabalho, todos o conheciam.
Desde a nobres ricos a ladrões de estrada. Por isso se sentia confiante e em segurança pelas estradas de noite.
O problema era os homens de Herodes, que procuravam algum sinal do nascimento do Menino ou alguém que lhes indicasse a mulher que estaria grávida do suposto Messias.
O dinheiro era pouco.
Mal dava para se alimentarem em condições.
Alugar um quarto ou contratar uma curandeira para o nascimento da criança era impensável.
Estavam às portas de Bethleém e tinham de arranjar um local para ficar, urgentemente.
O tempo estava a terminar.
Mariah poderia ter o bebé a qualquer momento.
(...)

Tentação (XVII)

(...)

Era apenas uma lenda.
Um homem que nasceria de uma virgem e que seria concebido por um espírito, por um ser de luz.
Esse Homem metade humano, metade divindade, seria o Rei dos Homens.
Mas essa lenda estava escrita no Livro do Destino.
Era um livro em branco, no qual aparecia escrito, como que por artes mágicas, o que de importante iria acontecer na história da Humanidade.
Quem o possuía sabia que só existia aquele livro e outro que era impossível de adquirir já que estava com o próprio Deus dos Homens.
Aquele tinha sido oferecido a Adão, antes de provar o pecado original.
E era Belchior que o tinha. Graças ao livro, ele e seus dois irmãos governavam grande parte da que seria no futuro chamada de Ásia Central.
Eram seres muito antigos, meio homens, meio humanos.
Seres poderosos que se movimentavam entre a Humanidade há séculos.
Seres extremamente sábios e que podiam ter tudo o que queriam.
Eram conhecidos pelos Reis Magos, dada o seu poder sobrenatural e a sua clarividência para prever o futuro.
Tal como Jesus, nome escrito no Livro do Destino, eles eram filhos do homem e de seres de luz, viam no nascimento do Filho de Deus o surgimento de uma era em que eles se tornariam senhores do mundo.

(...)

Tentação (XVI)

(...)

Herodes não gostava nada do que se estava a passar.
Quis saber quem eram os pais da criança de que tanto se falava.
Ouvira dizer que era filho de um carpinteiro e de uma doméstica.
Como poderia ser?

Mas Joseph já calculava que algo iria acontecer e resolveu pegar na sua mulher, fugindo em busca de algo importante.
A sobrevivência de seu filho.

(...)

Tentação (XV)

(...)

Já corria de boca em boca a vinda do Messias.
Rezava numa velha lenda que haveria de chegar o Filho de Deus para expulsar o invasor estrangeiro e se tornar o rei de uma nova nação, de uma nova era.
O boato começou quando Joseph, inadvertidamente, deixou escapar a situação numa das noites em que se deitou com o romano, soldado esse que tinha sido recrutado entre o povo daquele lugar.
Não foram necessárias mais de 24 horas para que todos soubessem que algo estava para acontecer.
E o boato chegou aos ouvidos de Herodes. Uma ameaça ao seu trono estava para breve!
E o jovem romano, crente nas tradições do seu povo, despojou-se das suas armas e roupas tornando-se o mensageiro da Boa Nova, espalhando aos ventos a chegada do Messias.
Numa noite em que ia a regressar a casa, cansado de pregar a Boa Nova, foi cercado por puros soldados romanos, que o reconheceram como tendo sido um deles.
A Lua estava cheia e a fome brilhava nos olhos dos guerreiros.
O Profeta ainda tentou esboçar a defesa, mas os Filhos da Loba caíram sobre ele, quais metamorfos esfomeados, não deixando nada do seu corpo.
Saciados, regressaram ao forte sem que ninguém se tivesse apercebido de tal.

(...)

Tentação (XIV)

(...)
Herodes era um rei poderoso.
Pelo menos até aquele povo ter chegado.
Fortes, poderosos, guerreiros, os Filhos da Loba subjugaram-no, transformaram-no num dócil cordeiro.
Ainda se sentia um Rei com poder. Mas a mando de Roma.
Nada conseguia fazer para os afastar das suas terras, por isso, declarou lealdade a Roma e tornou-se cidadão honorário.
Como os filhos de Loba, Herodes gostava da carne.
Dos prazeres e da tentação da carne.
Prazeres esses trazidos pelo invasor estrangeiro para o seu território.
Não podia ser tudo mau.
Não havia noite que Herodes não passasse em orgias de sangue e sexo culminadas por um grande banquete onde ingeriam todo o tipo de iguarias!
A sua preferida era a carne tenra de crianças do povo.
Não havia sabor igual!
(...)

Tentação (XIII)

(...)

Nessa noite Mariah e Joseph foram novamente visitados pelo Filho da Luz, pelo Espírito Santo.
Foi-lhes transmitido o que teria de ser feito.
E assim ficaram a saber que Deus estava por detrás daquele acontecimento.
Que Mariah estava nas graças do Senhor.
O Ser de Luz teve de se conter para, após ter dado a Nova, não se lançar no corpo tentador de Mariah!
Sabia que se o fizesse, desta vez Deus não o perdoaria.
Nessa manhã pensaram ambos que sonharam.
Contaram o “sonho” um ao outro e deslocaram-se a casa dos pais de Mariah para contar a Boa Nova!
Explicaram o sucedido.
A mãe de Mariah certificou-se e confirmou que a filha ainda era virgem! Todos se ajoelharam perante Mariah e rezaram a Deus!

(...)

Tentação (XII)

(...)
Quando foi chamado uma onda de alegria invadiu o seu corpo!
Sabia que tinha cometido pecado. Sabia que poderia ser transformado em energia cósmica deixando de ser o Arcanjo, filho do Senhor, que era.
Mas ser chamado à Sua presença, após ter sido relegado para o mundo terreno dava-lhe esperança de regressar ao Éden.
O Senhor chamou-o, repreendeu-o, mas já tinha na mente um plano concebido.
O Homem, fruto de uma experiência sua, tinha chegado a um momento fulcral da evolução como raça e devia ser tido em conta essa situação.
Teria de fazer algo para que não perdesse a devoção do ser humano.
E que não se voltassem para outros deuses.
O Anjo caído, sem o saber, criou a oportunidade para que isso acontecesse.
Já estava escrito no Livro do Destino.
Mariah iria ter uma criança.
Aos olhos do Homem, Mariah estaria imaculada, pura, virgem, porque nenhum filho de Adão conseguiria ver o que um Arcanjo faz ao corpo de um ser humano caso haja junção de corpo ou mente entre eles.
Ele, anjo caído, Filho de Luz, Filho do Senhor era feito à sua imagem.
Sendo assim ele era o Pai Celestial da criança, concebida através do Filho da Luz, Espírito Santo, Arcanjo do Senhor.
E a criança seria varão e seu nome Jesus.
Começaria uma nova Era.
Mas mesmo ele, Senhor Celestial, não tinha meios de ver que poderes teria essa criança, fruto de uma mulher e de um Ente Celeste!
(...)

Tentação (XI)

(...)
Joseph não compreendia porque sua mulher mentia! “Como era possível?” pensava ele. Julgava ela que era néscio? Provavelmente fez o que ele já fazia há muito.
Deitar-se com os romanos!!! ”Louca, era uma louca! Se fazia isso, porque falou com os pais? Devia ser para se deitar comigo, seu marido e assim disfarçar o seu pecado” Assim pensava ele.
Mariah dormia profundamente quando uma pequena luz entrou no quarto.
Assustado Joseph deu um pulo da cama e agarrou num pau, pensando que fosse uma espécie de insecto desconhecido para ele!
O que seria aquilo?
Nesse momento a luz aumentou iluminando o interior da casa como se fosse de dia.
À sua frente apareceu!
Sempre era verdade o que Mariah dissera!
Era mais belo do que imaginara e exalava um perfume difícil de definir.
Era algo que parecia fazer o mesmo efeito que o mel faz às moscas.
“Joseph” disse. Mas a sua boca não se movia. A voz que ouvia era de dentro de sua mente.
Quem era ele? Um anjo? Um demónio? As duas coisas? Deus? Algum Ente Superior?
“Joseph, presta atenção. Mariah não estava a mentir. Nunca mais lhe toques como fizeste na noite anterior! Protege-a e a seu Filho e serás recompensado”
“Mas quem sois? Um anjo? Um Espírito Santo?”
“Chama-me como quiseres. Mas ouve e faz o que digo. A criança será a escolhida. Serás o princípio de uma Nova Era. E tu foste escolhido para seu pai na terra.”
“Perdoai a minha ignorância e a minha curiosidade Senhor. Nunca pensei que Anjos se deitassem com mulheres!” “Há muita coisa neste mundo e no outro que o Homem não sabe! Limita-te à tua ignorância e pequenez. E ouve o que te disse”
“Sim meu Senhor. E a minha recompensa? Falaste que seria recompensado!”
“Sim, não te preocupes. Vais ter a tua recompensa.”
Sorriu, tocou com suas longas e experientes mãos no corpo de Joseph como o fez com Mariah, abriu as asas de Arcanjo e deitou-se sobre ele!

Entretanto, Mariah dormia profundamente a poucos metros deles!
(...)

Tentação (X)

(...)
Sentia-se quente, protegido, alimentado.
Doce sabor, o do liquido que corria alimentando-o.
Doce o fluxo que percorria o corpo que o protegia, fluindo pelo útero, na placenta, chegando a ele, morno e delicioso.
Mesmo em fase embrionária já tinha uma consciência, uma alma, um sentido de vida. Sabia que aquela segurança não seria para sempre.
Estava próxima a hora de nascer.
Mas aquele doce sabor era irresistível!
(...)

Tentação (IX)

(...)
Já o dia ia a meio quando Joseph regressou.
Ela não se tinha mexido.
Cheia de dores ficara queda e muda, no chão frio e empoeirado de sua casa.
Joseph agarrou-a como se de um bebé se tratasse e colocou-a na cama.
Vinha diferente.
Já tinha perdido a raiva, aparentemente, mas a sua cara ainda estava sulcada com o rio de lágrimas que deitara. “Peço desculpa, Mariah. Agi sem pensar. Devia saber que após um ano de casados e sem cumprir como homem irias buscar o que não tinhas, fora de casa” “Mas...” “Shhh, silêncio! Deixa-me terminar!” Disse Joseph fazendo com que Mariah se encolhesse toda com receio que a raiva voltasse ao seu homem. “Como a culpa foi minha, eu aceito!” “O que aceitas, Joseph?” “A criança. Aceito a criança como se fosse minha. Não te vou repudiar aos olhos do povo porque senão, eras repudiada por todos, ou mesmo lapidada. Repudiar-te-ei somente eu, em segredo. Aos olhos de todos manteremos a mesma atitude. Mas no interior do lar dormiremos separados e não me dirigirás a palavra. A criança quando nascer será tratado como se meu filho fosse. Só quero saber uma coisa. Quem foi? Alguém que conheça? Um estrangeiro? Um... um... romano?” “Não sei!” disse Mariah “mas era extremamente belo... e tinha asas, como um anjo!!!”

O silêncio abateu-se entre ambos...
(...)

Tentação (VIII)

(...) A manhã nasceu com Mariah agonizando no chão de sua casa. Estava mais uma vez só, mas desta vez por razões diferentes. A sorte dela é que o cinto de Joseph era de pano enrolado e não de pele. Mas mesmo assim, com a violência e cadência brutal que ele dera às chicotadas ficou com o corpo todo negro e vergastado. A reacção dela foi de instinto maternal. Protegeu o seu ventre encolhendo-se formando como que uma bola, recebendo as vergastadas nas costas, na cabeça, nas nádegas, nas pernas. Quando Joseph se cansou, sentindo-se impotente chorou que nem uma criança e saiu de casa ainda a noite ia alta indo em busca de consolo nos braços do soldado romano.
(...)

Tentação (VII)

(...)
A noite estava quente. A luz da lua e de milhares de estrelas faziam com que a noite parecesse dia.
Esperou que chegasse a hora de deitar.
Quando se recolheram ao leito, ambos disseram que queriam falar um com o outro.
Ela nervosa, enrubesceu e ele apenas sorriu.
Como mulher, obediente e respeitadora como era hábito e tradição naqueles tempos, silenciou-se e esperou que seu marido dissesse o que tinha a dizer.
Explicou-lhe que falara com seu pai.
Ela foi ouvindo. E quanto mais ouvia, mais um esgar de pânico se assomava na sua cara.
Ao vê-la em pânico, tentou acalmá-la, pensando que estava assustada por ter de se deitar com ele como amante. “Não te preocupes, Mariah, não te magoarei e não farei nada contra a tua vontade. Se não quiseres, podemos fingir que aconteceu!” “Não é isso, Joseph, meu senhor.” “Então o que se passa?” “Acho que estou... grávida!”.
Joseph a principio ficou quedo e mudo, tendo o sangue desaparecido da sua face.
Até que começou a enrubescer, a ferver, a enraivecer. Um grito de raiva saiu da sua garganta, tirou o cinto selvaticamente da cintura e chicoteou-a até não ter força nos braços.
(...)

Tentação (VI)

O tempo passava e aquilo andava a roer por dentro. Tinha de falar com o marido antes que acontecesse uma desgraça. A mãe de Mariah sentia que, para bem da filha, tinha de fazer algo. Falou com o esposo e colocou-o ao corrente da situação. Ele ouviu, suspirou e acedeu, preocupado em falar com Joseph. Deslocou-se a sua casa e chamou-o. Intrigado, por seu sogro o visitar a uma hora de trabalho, foram vagueando pelas ruas da aldeia para poderem conversar.
O pai de Mariah, com algum receio, explicou que ela andava com sonhos impuros, eróticos, molhados e que necessitava urgentemente de um homem.
Ficou chocado com o que o seu sogro lhe dizia. Nunca pensara ouvir aquilo de sua boca. Mesmo não estando para aí virado, concordou. Explicou que nunca o fizera porque Mariah era apenas uma companhia doce e terna. Nunca olhara para ela como uma mulher necessitada do toque carnal de um macho! Mas aceitava as razões do sogro e ia fazer o papel que lhe cabia no leito conjugal.
Pelo menos ia tentar, pensou!

Tentação (IV)

Os dias passavam, as semanas corriam e nada de anormal se passava, sempre a mesma rotina, sempre a mesma vida.
E assim se fez um ano de casados aos olhos de Deus.
Mas Mariah sentia uma vontade estranha que não sabia explicar.
E com a vontade vinham pensamentos impuros.
E com os pensamentos impuros vinham os desejos!
Tinha vergonha de expor a sua mente ao marido por isso fazia de sua mãe, confidente. A mãe preocupada, por saber que Joseph nunca iria satisfazer Mariah como mulher, tentava tirar-lhe isso da cabeça.
Dizia que era o Demo a tentá-la e a filha ouvia e acreditava que assim era.
E Joseph nem reparava que a mulher precisava de algo mais que um sorriso, que um obrigado depois das refeições, que um até amanhã ao deitar.

Tentação (V)

Nessa noite, Mariah dormia só.
Joseph teve de se deslocar ao forte romano para recuperar uma paliçada e pernoitava por lá.
Já não era a primeira vez que dormia sozinha.
Mas naquela noite sentia-se diferente.
Estava calma, repousada e os pensamentos impuros que tinha constantemente não invadiam a sua mente.
Ouviu algo, ou melhor, pressentiu algo. Mas manteve-se estranhamente calma.
Apareceu do nada. Uma luz brilhante encheu a sua casa e da noite fez-se o dia.
Era belo. Estranhamente belo. Nunca tinha visto ninguém assim.
Com um aspecto andrógino, mas extremamente belo.
No ar estava um aroma impossível de definir. Aroma esse que a fazia sentir-se ainda mais atraída por ele.
Não sabia dizer quem ele era, nunca o tinha visto, mas no fundo da sua mente sabia o que ele era.
Um verdadeiro predador. E estava pronta para se entregar.
Ele sorriu, tocou com suas longas e experientes mãos no seu corpo, abriu as asas de Arcanjo e deitou-se sobre ela amando-a e servindo-se do seu corpo a noite toda!

Entretanto lá longe, Joseph dormia o sono dos justos depois de ter recuperado e erguido a paliçada romana. A seu lado descansava um soldado romano com as pernas entrelaçadas nas dele...
...não era só a paliçada que Joseph erguia aos soldados romanos desde que ficara viúvo...

Tentação (III)

(...)
Observava-a em segredo, fosse de dia, fosse de noite. Nas sombras escondia-se admirando o seu corpo belo e escultural escondido debaixo de roupas que para ele não passavam de andrajos velhos e sujos. Tinha a capacidade de ver mais além, de ver o que aquelas roupas escondiam... e gostava do que via! Sentia-se atraído pelo aroma emanado por aquela filha de Adão, pela sua figura, pelas suas carnes...!
Anjo caído, vagueava pelo mundo dos Homens em busca do perdão de Deus, em busca da Salvação, do regresso ao seu Reino, ao Reino do Senhor, ao Reino do Amor. Mas para isso teria de praticar o bem, ajudar os necessitados e nunca causar mal ou dolo aos Filhos de Adão. Não lhe era permitido olhar para as mulheres, seres frágeis e proibidos por Deus. Sabia-o perfeitamente.
Outros houve antes dele que não resistiram e caíram na tentação da carne.
Antes de a ver, achava isso impossível... mas Mariah era uma enorme tentação!
(...)

Tentação (II)

(...)
Mariah, jovem mulher teve de deixar a sua casa muito cedo para acompanhar Joseph, homem feito, carpinteiro de profissão. Menina e moça sentia-se envergonhada na sua presença quase não falando duas palavras seguidas. Ele, mais velho quase cinquenta anos, respeitava-a e tratava-a com carinho. Não era normal nos homens daquele tempo que normalmente tratavam com desdém as mulheres, fossem elas mães, irmãs, ou suas mulheres como era o seu caso. Viviam numa casa típica de adobe e barro! Ela passava o tempo a tratar da horta e a cuidar da roupa e do alimento de seu homem. Joseph visitava potenciais clientes para arranjar algo fora do orçamento. Se bem que pouco necessitava disso já que os romanos eram o seu principal cliente. O exército preferencialmente. Todos os meses fazia cruzes de madeira para os suplícios. E era feliz. Desde que a sua amada morrera, pensou que iria envelhecer sem ninguém a seu lado. Mas Mariah, que ele tinha pegado ao colo quando nascera, não tinha pretendente. Os pais andavam desesperados ao ver que a filha, mulher já com catorze anos feitos ainda não era casada. Era extremamente bela e isso fazia com que os homens fugissem da sua beleza estonteante. Pele alva, branquíssima, para as mulheres daquele povo, daquela raça, olhos cor de mel, brilhantes e tristemente sedutores deixavam qualquer homem sem confiança. Por isso Joseph avançou. A beleza de Mariah não o hipnotizava já que o coração dele ficara para sempre com a mulher que o deixara para ir ao encontro do único Deus! Apenas queria alguém que cuidasse dele e o acarinhasse quando a força e vigor o começassem a deixar. Nada mais lhe pedia.
(...)

Tentação (I)

Novo conto que começa hoje. Espero que gostem.

(...)
Triste é o mundo sem luz. Triste é a eternidade sem o amor. Triste são os homens que adoram imagens profanas. Ilusões simbólicas que personificam os seus pseudo deuses fictícios, imaginários, vis e mesquinhos! A carne é fraca, a alma é forte. Mas no corpo do homem a alma acompanha a carne. Torna-se fraca até ao dia da libertação. Até à hora da sua morte. Mas mesmo assim o filho de Adão sabe gerar criaturas divinas, belas, sensíveis, tentadoras. Mariah é uma delas!

Tentação (XXI)

(...)

Sabiam onde Jesus ia nascer.
Estava escrito no Livro do destino.
Partindo com um séquito enorme, tinham como destino a pobre Bethleém.
Sabiam que ao chegarem veriam um sinal.
Algo que lhes diria que era ali que estava Jesus, o Salvador!

Partiram atempadamente.
Sabiam que tinham de percorrer estradas e lugares inóspitos durante semanas.
Talvez até meses. Mas se o Livro estivesse correcto valeria a pena.
Levavam prendas que seriam importantes para o momento.
Se não fossem as oferendas, teriam viajado sós e chegariam em poucas horas ao local, dado os seus poderes.
Mas tão carregados como estavam não podiam prescindir do séquito.

Eram oferendas simbólicas.
Cada uma representava algo místico.

Levavam ouro, incenso e mirra.
Ouro para purificar a mente, corpo e espírito.
Para eles, magos, alquimistas o ouro era a perfeição da matéria.
Servia para curar, dava juventude e saúde!
E servir-lhe-ia para ter uma educação exemplar.

Levavam incenso para queimar.
O fumo do incenso era carregado de propriedades místicas e dava grande poder ao seu possuidor.
Cada tipo de incenso que levavam era para algo diferente.
Ao ser queimado criava um ambiente de paz e luz que elevava os seres a um outro plano espiritual.

Levavam mirra.
Para sua protecção e elevação mental.
Estimulava a compreensão e a estabilidade.
Com esses três elementos, o Salvador seria um ser perfeito.
Junção de carne, espírito e luz celestial!

(...)

sábado, fevereiro 06, 2010

Mundo do silêncio (IV)

(...)


Rodeada de verdes campos, milhares de pássaros de todas as cores, pequenos esquilos em corrida disputando bolotas como se fossem as últimas e um céu de um azul brilhante como se fosse iluminado por mil sóis, Joana com um vestido em tons verdes, cintado, com rendas, que tornava a sua figura fina e esbelta, estava descalça.
Em cada passo que dava sentia pequenas pedras a furar a planta de seu pé!
Nunca tinha estado naquele mundo.
Cada vez que “viajava” podia ir parar a dimensões totalmente diferentes das anteriores.
Mas continuava a ouvir, ao longe, o som melancólico da flauta de sua mãe!
A seu lado encontrava-se uma floresta luxuriante de verdes!
À sua frente perfilava-se uma colina tendo como pano de fundo uma construção semelhante a um castelo!
Mas um castelo diferente de todos os que conhecia, feito de cristais!
(...)

domingo, janeiro 24, 2010

O Mundo do Silêncio (III)

(...)


Joana encostada à sua mãe, sentindo o calor protector do seu corpo, sentiu-se transportada para outro mundo. Como que adormecendo no seu estado corpóreo!
Tinha o olhar na Alma que pairava acima de tudo e todos.
Os sonhos eram inventados com mil cores.
Habitava numa casinha de um canto da mente onde cabia o mundo.
Trombetas tocavam enchendo o ar de sons e cores competindo com nuvens e raios de sol que por si passavam.
Os sorrisos tinham o doce sabor da loucura de viver.
Os cabelos esvoaçavam com o vento, carregados do orvalho da manhã.
Tempo que tentava manter.
Nem que fosse no interior de uma lágrima feita de sal em diamante.
Tempo de uma vida.
De toda a sua vida.
Deu dois passos e morreu para a vida.
Para essa vida vivida até hoje mas... renascendo para outra.
Em cada passo dado tinha uma vida vivida.
Recordando todas essas vivências ia vivendo com a Primavera no coração e uma sombra no sorriso.

(...)

quinta-feira, janeiro 21, 2010

O Mundo do Silêncio (II)

(...)

Joana reage, como que semi despertando do seu encantamento.

Olha para sua mãe que toca absorta do que a rodeia.
Parece que procura a primavera com suas flores e aromas da natureza.
Parece que toca no outono e suas cores ocres, belas e acolhedoras.
Parece que invoca o vento invernal, frio e sábio das geadas do norte.
Parece que cria chamas encantatórias e quentes do calor de verão.
Isto na sua mente. No seu subconsciente.
Para a mãe não passa de uma das raras e belas melodias que aprendera nos tempos de infância, nos bancos de escola das aulas de música, onde uma velha professora de óculos de aro de tartaruga a obrigava a decorar sempre os mesmos tons, monótonos e aborrecidos.
Levanta-se e dirige-se à sua mãe. A progenitora pára de tocar, surpresa por ver a filha encostar o corpo ao seu!
"A música opera milagres", pensou, sorrindo no seu interior, voltando a tocar aquela melodia fluída e melancólica!

(...)

quinta-feira, janeiro 14, 2010

O mundo do silêncio (I)

Silêncio.


Um olhar distante, observando algo que mais ninguém consegue ver!
Está no seu mundo!
Silencioso, calmo, vazio, sem história!
É este o mundo de Joana. Pelo menos assim acha quem a rodeia ou quem a observa, sem saberem que o seu universo é mais rico do que sequer podem imaginar!
Nada sabem dela a não ser o que deixa saber. Mas tudo sabe deles.

Observa, em silêncio, em oração de alma!

Seus pais tudo fazem, tudo fizeram e tudo continuam a fazer, para que seja uma criança igual a tantas outras... mas pouco conseguem.
A ciência, por muitos avanços que tenha, ainda não conseguiu penetrar na mente desses jovens estranhos, belos, frágeis e distantes.

Jovens de cristal, que vieram a um mundo que, supostamente, não é o deles.

Fisicamente encontram-se no mundo dos seus pais, um mundo cinzento, chuvoso e triste, mas em alma estão num mundo distante do olhar dos Homens, do comum dos mortais.
E só de quando em vez encontram um portal que os transporta, dando sinal de si a quem os rodeia, enriquecendo-os mais.

Uma flauta toca, enchendo o ar de sons mágicos e encantatórios!

(...)

quarta-feira, janeiro 13, 2010

Esconderijos da alma





"...E a noite esconde os monstros que estão nos recantos da alma!!!!!!!!!
É nela que se reflecte o mal que emana da condição humana.
Bem vindo à realidade, - diziam, pairando como neblina nos seus olhos -......"

Corte de água...

Vi uma notícia na televisão, por causa da falta de água em Évora. Os habitantes queixavam-se que não tinham sido informados, previamente, pela empresa das Águas, do corte de água.

Já estou a ver como vai ser para a próxima.

“Trrrimmm. Trimmmmmmmm. Trrimmmmm

- hmmmmmfff. Estou?

- - Boa noite. Estou a ligar da Empresa das Águas. Gostaríamos de informar que vamos cortar o caudal aproximadamente daqui a.. uma hora.

- ????Desculpe????

- Estou a ligar da emp...

- Eu ouvi, seu mentecapto! Mas você já viu as horas? São quatro da manhã!!! Acordou-me para dizer isso?????

- Perdão, mas deve haver um equivoco!

- De certeza, seu iconoclasta! Você é doido ou quê, para me incomodar a esta hora?

- Não! Deve haver um equivoco, mas por outra razão. O senhor no passado mês de Dezembro de 2009 não se queixou publicamente que a empresa das águas não avisou de um corte no fornecimento da água?

- Hmmm! Sim! Mas nunca às 4 da manhã, não é, seu ectoplasma?

- Perdão! Só detectámos neste momento um problema no sistema de distribuição. Por isso, nunca poderíamos avisar antes. O senhor pediu, aqui está o aviso. Estamos a ligar a si e aos outros oitenta mil consumidores que se queixaram.

- Mas, mas...

- Ah! Também o avisamos que esta chamada vai ficar reflectida na sua próxima factura. Boa noite!

Bip, bip, bip.....”

quinta-feira, dezembro 31, 2009

Feliz ANO NOVO para Todos Vós





"Reposição de conto meu"


...10...


...com sapatinhos de verniz, de mão dada à avó e à Tia, Clara de seu nome, no Cais, acho que de Alcântara, esperávamos um gigantesco navio que trazia de volta, das terras quentes de África, meu pai, que apenas recordava nas fotografias, dado nunca o ter visto, porque a minha mãe já estava grávida quando ele partira, a última vez...

...9...

...Ao colo de meu pai, vejo-a aproximar-se, sorri-me, agarra-me, diz que é minha mãe.

Logo de seguida estou em casa dos meus avós. Com 3 anos de idade, observo a sombrinha de chocolate, prata vermelha, na minha pequena mão. Uma das coisas que a minha mãe me tinha dado. A última...

...8...

...Dizem que chorei e gritei pela minha mãe, na noite que morreu. Acordei aos gritos e a chorar a dizer que a queria. Minutos depois o telefone tocou...

...7...

...Meu avô, com infinita paciência, ensina-me as letras, a esta criança de 4 anos, só porque adorava ver os livros de histórias que povoaram a minha infância e meu avô achou por bem, eu saber ler...

...6...

...Brinco com uma menina que não me recordo o nome. Dizemos que somos namorados do alto da nossa pequenez. Pingentes de gente, inocentes e felizes, que nada sabiam sobre a vida. Meses depois mudou-se e nunca mais a vi....

...5...

.-..Brinco com o meu amigo de sempre, Miguel. Anos passaram e a amizade sempre durou. Primo por afinidade. A vida separou-nos um pouco, mas sempre nos recordamos de quem gostamos...

...4...

...Sento-me na primeira cadeira, da primeira mesa, no meio da sala de aulas. Os meninos que lá se encontram são estranhos para mim. Uns olham, outros riem-se, outros falam sobre mim. No meu primeiro dia de escola. Impávido e sereno, mantenho-me calmo, como se pertencesse àquele mundo...

...3.

...Meu Padrinho João, que eu adorava, amigo de sempre, partiu na sua última corrida. Jovem bem parecido, corredor de automóveis e membro de um rancho de folclore nos tempos livres, depois de levar a namorada a casa, no regresso, deixou a vida de encontro a uma árvore, acabando ali as suas corridas e a sua vida cheia de luz e alegria...

...2...

.. Meu Avô, meu querido avô João partiu. A doença, Parkinson, e a vida levaram-no para longe, mas ainda e sempre, povoa os meus sonhos...

...1...

...Casei com a menina que um dia, ainda bem criança, disse para mim mesmo, seria a minha mulher. Anos de namoro, altos e baixos, como é a vida, mas quando precisamos um do outro, temos estado sempre lá...

...0...

... Nasceu o desejado, a minha alma, a nossa alma, a razão de viver. Sebastião, El-Rei, o príncipe encantado...



Meia Noite, tocam os sinos das igrejas. A contagem decrescente terminou. Um ano novo chegou. Com a boca cheia de passas dos desejos, rebentam foguetes. Panelas e tachos fazem barulho nas janelas e varandas das cidades. Pessoas abraçam-se, beijam-se e desejam felicidade umas às outras. Mais um ano que chega, outro que partiu.

Beijamo-nos, abraçamo-nos, desejando tudo de bom para nós e para quem nos rodeia...

... e recordo todos que amo e amei. Aqueles que me deixaram. Meu avô materno, meus bisavós paternos a que chamava carinhosamente avós velhos, meus tio António e Tia Clara, de Queluz, minha prima Rosa, meus amigos Bizarro, Amilcar, e todos os que amei e deixei de ver, simplesmente porque a vida é feita de enganos e desenganos.

Feliz 2010 cheio de estrelas no vosso firmamento.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

FESTAS FELIZES

Passei para desejar um Bom e Santo Natal a todos os meus amigos.
Que tenham muita felicidade, amor e prendinhas no sapatinho!!!!!

BOM NATAAAAALLLLLLL

quinta-feira, dezembro 10, 2009

Exposição de Pintura de Ana Garrett "Quem conta um conto..."

Ana Garrett conta contos contados, inventados, criados ou imaginados através da tela, das tintas, dos pincéis, das suas cores, da sua paleta, da sua imaginação!
Ana Garrett gosta de recriar um mundo de fantasia e de revisitar velhos ou, quiçá, novos clássicos através de um mundo muito próprio que tem origem no seu atelier e acaba onde a alma humana o deseja.
Ou talvez não!
É uma pintura repleta de lugares mágicos e personagens tão fantasmagóricas como encantatórias, tão assustadoras como cativantes.
Essa é a pintura de Ana.
Quem conta um Conto...

Biblioteca Municipal Fernando Piteira Santos (Pcta. António Duarte, 4 A, São Brás, Amadora)

Inauguração a 12 de Dezembro às 16 horas

Esperamos por vós.

Decorrerá até 4 de Janeiro de 2010

Contamos convosco.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Lançamento de livro de arte

Amigos.
Convido-vos para estarem presentes no lançamento do "Livro de Ouro de Arte Contemporânea em Portugal - II" no próximo dia 5 (cinco) de Dezembro, pelas 15 horas, no In-Club, nas Docas de Santo Amaro, Armazém 5, Alcântara.
A Ana (Garrett), minha mulher, é uma das artistas plásticas que está representada nesse livro.
Não faltem.
Obrigado
Paulo

terça-feira, novembro 24, 2009

Amores verdadeiros

Absorta nos seus pensamentos, de cigarro aceso na mão, mirava com um olhar vazio o copo à sua frente! Já tinha prometido a si mesma que deixaria de fumar. Mas nunca o conseguira! Maldito vício que não a largava! Ainda tão jovem e bela mas... só isso não a deixava. Quanto ao resto era o que se via! Não conseguia amar sem ter um desgosto. Não conseguia se dar sem perder o outro! Via à sua frente uma vida vazia, sem esperança de envelhecer com alguém a seu lado. Alguém que ela pudesse amar e dar tudo de si a essa criatura!

Distraidamente, como qualquer frequentador de bar faz, olhou à sua volta. As mesmas caras, as mesmas pessoas, todos os dias, todas as noites à volta de um copo ora meio vazio, ora meio cheio.

Até que reparou nele. Nunca o tinha visto. Ou talvez nunca tivesse querido reparar nele. Não, nunca o tinha visto mesmo. Era uma cara nova. Alguém que resolvera entrar e sentar-se mesmo em frente a ela do outro lado do balcão!

Reparou nos seus olhos. Brilhavam. Mas estavam tristes. Mas... olhava-a directamente ! Sentiu atrapalhação.
Observada! Mas ao mesmo tempo atraída por aquela alma errante! Tornou a olhar para ele. Colaram os olhares. Ele sorriu. Um sorriso triste com aqueles grandes olhos doces. Ela tentou sorrir! Viu-o levantar-se. Sentiu-se incomodada mas ao mesmo tempo ansiosa! Deu a volta ao bar e sentou-se a seu lado. Por sorte a cadeira estava vaga. Pediu licença antes de ocupar o lugar. Pediu o mesmo que ela bebia.

Olharam-se. E naquele momento aquele olhar valeu mais do que mil palavras.

Absorto nos pensamentos, de copo na mão olhava e observava a bebida a ondular no vidro do copo que tinha entre mãos, bebida que nem sequer tocara os lábios. Era naquelas alturas que gostava de ter tido um vício. Um vício que matasse, como o tabaco ou o alcool. Mas não! Nada disso possuía e o que tinha, o que tivera, um grande amor, alguém lho tirara. Alguém divino, que resolvera chamá-la para junto dele!

Agora, já com uma idade bastante avançada, a seu ver, sentia-se só, triste e sem ninguém com quem falar, com quem discutir, abraçar ou simplesmente olhar como se olha para uma bela flor!

Nunca tiveram filhos. Ambos concordaram em não os ter. para gozarem melhor a vida. Passearem, viajarem, divertirem-se... e agora... nada disso interessava, sentia que na sua vida sempre houvera um vazio que seria impossível de preencher!

Enterrado nos seus pensamentos, olhou em frente, como se de um verdadeiro frequentador de bares fosse, e foi nessa altura que a viu. Bela, jovem, linda de morrer, mas ao mesmo tempo triste, melancólica... e só. Como ele.

Cruzaram os olhares. Foi apenas um momento, mas as suas almas sentiram-se ligadas. Porquê? Não o sabia. Mas algo lhe dizia que aquela jovem que estava ali sentada, só, triste e vazia de vida, era a sua alma gémea. Tão diferente de quem amara, mas a sua alma gémea.

Apanhou coragem, levantou-se e tomou o lugar junto a ela. Pediu licença para o fazer. Pediu a mesma bebida que aquela bela jovem tomava. Devia ter quase uns vinte anos a menos que ela. Ele que agora galopava incessantemente para os cinquenta.

Olharam-se. E naquele momento aquele olhar valeu mais do que mil palavras.

Amara-o como nunca amara nenhum homem na sua vida. Vivera com ele estes últimos trinta anos, sempre cheios de amor e felicidade por se terem encontrado. Por terem descoberto, novamente, a vida.

Agora sentava-se a seu lado. Ao lado de uma cama de hospital onde ele com os seus oitentas, e uma doença incurável, agonizava, esperando apenas que a fria mão da morte o levasse para longe.
Iria ficar novamente só e isso custar-lhe-ia imenso. Não sabia como viver sem ele a seu lado.

Lembrava-se perfeitamente dela. Da sua beleza. Do primeiro momento quando a vira. Daquela noite em que pensara dar um término à vida.
Rejuvenesceu-o, deu-lhe novo alento, fê-lo ver novamente o que era o amor. Mas estava próximo o momento da despedida.

Do outro lado, a sua primeira, o seu primeiro grande amor, olhava-o com os mesmos olhos doces e ternos. Esperava o seu último sopro para que voltassem a estar juntos. Para que ficassem ambos a pertencer à energia do Universo.

Quando ele partiu, fê-lo com um sorriso nos lábios e de mão dada a ela. Chorou e sentiu-se só. Novamente. Naquele mundo triste e cinzento que não tinha nada mais para lhe dar.
Não aguentou muito.
Largou a mão daquele corpo inerte e sem vida. Dirigiu-se à janela do quarto do hospital, quarto que se encontrava num oitavo andar e não esperou. Lançou-se no vazio esperando que ele estivesse à sua espera no fim do salto.

Esperava-a. Mas não estava só. Vinha com uma bela mulher que apenas vira em fotos de álbuns cheios de recordações.

Sorriram para ela.

Ela também sorriu.

Entendeu que o amor é isso mesmo. Universal. Pleno e cheio de ternura. Para a eternidade.

Seguiram as suas novas existências de mãos dadas. Para todo o sempre.

Nunca mais se separariam.

domingo, novembro 22, 2009

Primavera no Novo Mundo



Primavera no Novo Mundo
Óleo em Tela de Ana Garrett
0,60 x 0,60
Excerto de conto de Paulo Roderick

(…)


Todos cantavam belas canções e poemas à Fada Rainha Mãe.

Pequenos animais da floresta carregavam belas e singelas prendas para ofertar Laureanna.

Estavam lá, vindos de todos os cantos do Reino de Luz, Fadas da Floresta, das Nuvens, dos Lagos, das Montanhas, Elfos, Unicórnios, Faunos, Gnomos, Centauros e muitas outras criaturas.

Sete pratos foram servidos, sete canções foram cantadas, sete poemas foram ditos, sete beijos foram dados, sete danças foram tocadas.

Até o mortal, paixão de Adrianna, dançava em campos de papoilas!

Tudo para saudar e celebrar o nascimento de Laureanna. Laureanna parecia que tinha perdido o dom da audição, tão inundado estava o seu cérebro, de alegria. Mas não tinha perdido o outro dom. Mais importante para ela.

O dom de ver quem a amava... Estava entre os seus...

(…)

quarta-feira, novembro 11, 2009

Recordações



"Recordações"
Óleo em tela de Ana Garrett
0,70 x 0,50
Excerto de conto de Paulo Roderick

(…)


Invadia-me os sonhos, a imagem de Adrianna, ou Anna como lhe chamava na intimidade!

Por vezes ainda acordo a sorrir pensando que regressou do mundo dos mortos e tudo foi um sonho!

Nessas alturas a dor de alma é maior, tamanha é a desilusão.

Nunca mais encontrei ninguém como ela, essa fada diáfana de mil cores e desejos!

Tive a sensação de a ter encontrado a partir do momento em que uma misteriosa mulher me escrevia, deixando debaixo de uma pedra, as suas palavras de amor!

Fiquei louco de desejo e paixão. Mas nunca nos encontrámos!

Desisti de procurá-la há anos.

No início ainda desesperei, pensando ter encontrado Anna, nessa mortal, mas fora uma quimera que não deu fruto! Hoje, à distância, penso que poderá ter sido imaginação minha ou alguma brincadeira dos seres elementais.



(…)

segunda-feira, novembro 02, 2009

Nova Era (Hordas de elfos loucos)

Hordas de elfos loucos, sanguinários, sequiosos de vingança, desceram montes, montanhas, cruzaram vales, planícies, entranhas, saíram de florestas, bosques, matas, patranhas, de milhares de lugares incertos…
Hordas de criaturas aladas cruzaram céus, encheram horizontes, vieram de Nascente, nasceram de Poente, surgiram num repente, vieram de um quase nada, encheram um quase tudo…
Hordas de seres encantados cruzaram mares, terras, ares, lutaram contra ventos, marés, tormentos, debateram-se contra correntes de insensatez, contra o Homem e sua altivez…
Hordas do nada, do puro suposto imaginário encheram a Civilização do Homem, a terra dos humanos, o mundo da escuridão, a criação do homem, filho de Adão…
Vieram em busca do tempo perdido, em busca do tempo antes que fosse perdido, antes que perdessem o tempo, clamaram, reclamaram o direito, o lugar que lhe era pertença, o que era sua herança…
Chacinaram, mataram, retalharam, devoraram corações impuros, polutos, sujos, corruptos, mentes loucas insanas e cruéis do guerreiro homem…
Do Mundo do Filho de Adão apenas ficou aqueles puros de coração, limpos de alma, apenas ficou os que tinham direito de ficar, poucos homens… e… crianças, milhares, milhões, sem conta, corações belos e maravilhosos que receberam de braços abertos, mãos vazias e peitos cheios de alegria aqueles seres encantados, de triste fado, cantados em velhas epopeias, queimados em antigas fogueiras e que apenas reclamavam um lugar neste mundo que outrora fora seu e que cada vez mais se refugiavam na escuridão, na tristeza, no esquecimento, no mais negro da natureza, um buraco sem fundo, sem retorno, supostamente protegidos da maldade do Adão Guerreiro que até esses recantos quis para ele, bicho de ganância… ganhando o nada e perdendo...o tudo!
E uma nova Raça nasceu!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Coração de Pedra

“Sabes? Se vivesses comigo, seria diferente.
Mas como isso não acontece, não me lembro de ti sequer.
Tens perdido muito.
Não julgues que te vou dar alguma coisa, que não vou.
E se não estás contente podes sair do carro e dar corda aos sapatos”.

O homem que proferira aquelas palavras naquele momento era seu pai.
Dito assim parecia que sempre o quisera a seu lado e que ele não o queria. Mas não era verdade.
Nunca o fora.

Ele não passava de seu filho.
Simplesmente assim, sem o significado que a palavra tem.
Filho.
Sem o carinho que a palavra tem para um pai.
Sem o apoio, o amor, a amizade, a cumplicidade de um pai para a semente do seu sangue.
A caminho das zonas limítrofes da cidade ia a viatura que os transportava, em ritmo lento, de hora de ponta.
Filas de carros bufando e buzinando seguiam pela estrada empedrada.
Todos com destino.
Alguns sem rumo.
Aquela criança, aquele pequeno homem, olhava para seu pai com os olhos marejados de lágrimas.
Parecia que o rio tinha subido até ao nível do seu olhar.
Tudo ficou cinzento, como o dia que corria lento, ausente daquela realidade.
Como a paisagem que passava, desfilando cores cinza nublado nos vidros do carro.
O que se diria a um pai numa hora dessas?
Eram frases que um pai devia dizer a um filho?
Será que entendia que estava a falar com a carne da sua carne?
Que ele era a semente que tinha colocado no mundo?

Pediu para parar o automóvel.
O carro abrandou até parar a sua marcha.
Abriu a porta e saiu.
Ainda se apercebeu que seu pai lhe dizia algo, mas já não o ouvia, já não o via.
Tinha sido a gota de água que fez transbordar o copo.
Tinha sido a última lágrima que deitou ou que alguém vira correr, por palavras amargas e indiferentes de seu pai.

Virou costas e tomou o caminho contrário à correnteza do trânsito.
À correnteza do sangue.
O rio afagava-lhe o olhar.
Refugiava-lhe os pensamentos.
Acalmava-lhe a alma.
Seguiu.
Rumo ao futuro.
Um futuro que era seu e de quem o amasse.
O pai ficara.
Só.
Lá atrás!

Passaram dois homens com a felicidade nos olhos e nos gestos.
Um deles disse para o outro
“Pois é, amigo. Natal é quando um filho nasce. Sinto-me em festa”.

Acelerou o passo.
Enquanto se distanciava do seu progenitor, aquela frase dita naquele momento fez com que seu coração se tornasse pedra!
Pedra que chorava.
Por dentro!
Criando rios.
De amargura!

Nunca mais seria o mesmo.

sexta-feira, outubro 16, 2009

Os bebés são feitos de amor



Foto do meu filho Sebastião, oferecendo uma flor à mamã!

"Era uma casa antiga.
Como antigas são as recordações.
Se bem que esta casa não fazia parte das minhas recordações.
Uma casa antiga onde a madeira imperava.
Estávamos todos à mesa.
Quem... não sei.
Uma mesa corrida decorada com tudo o que seja necessário a uma refeição.
Tinha toalhas de renda. Recordo-me.
Mas... só sei que estávamos à mesa.
Como num velho livro de Agatha Christie, havia candelabros acesos, o ambiente era de penumbra e todos olhavam para mim. Directamente. Pelo menos assim o parecia.
Não sei quantos eram.
Ao meu lado, uma jovem de cabelos longos que lhe tapavam as faces, olhava directamente para mim.
Apercebia-me de seus olhos escuros cravados em mim, entre uns cabelos escorridos, digamos mesmo, sujos.
Inclinou-se e, com toda a calma, perguntou-me:
- E os bebés? São feitos de quê?
Lembro-me de estar calmo, sereno, mesmo num ambiente que nunca foi o meu, e respondi-lhe.
- Os bébés? - sorri - São feitos de amor.

Papá, papá. Mamã, mamã.

Acordei com o meu filhote de 22 meses a chamar-me. A minha Ana também acordou.
E o pequenote já no meio de nós, na nossa cama, sorria com a chucha na boca, olhando directamente para mim.
Beijei-o. Chamei-lhe todos os lindos nomes que ele merece e recordei-me deste estranho sonho.
É verdade. Os bebés são feitos de amor."

(Reposição de um mini-conto meu, que já tinha aqui publicado em tempos idos)
Paulo Roderick

quinta-feira, outubro 15, 2009

Carta a Maitê

Recebi por e-mail. Não sei quem é o autor, mas está bastante engraçada, usando as palavras dessa grande atriz brasileira, né?
Publico o que recebi, entre aspas.

Quanto a mim, fiquei "banzado" com o que vi! Nem queria acreditar que ainda há gente desta, supostamente figuras públicas, com responsabilidade, a fazer e dizer atrocidades daquelas. E mais ofensivo ainda, a maneira como o pseudo-documentário foi recebido no programa brasileiro. À gargalhada!
Podem dizer que eram piadas. Todos nós a fazemos. Os brasileiros sobre os portugueses e os portugueses sobre os brasileiros, eu também me rio com as piadas que fazem sobre nós, quando são bem feitas, mas isto não foi piada, foi ofensa mesmo.
Mal começou a falar sobre Sintra, eu nem queria acreditar. Numa vila que está carregada de história, belas paisagens, mistícismo, monumentos, palácios, castelos... ela se referiu a "uma vilazeca próxima de Lisboa" e só se preocupou do 3 virado ao contrário! Depois foi um descambar de asneiras que nunca mais parava!
Enfim...
Recordou-me um pouco o Borat. Mas em versão reles, mesmo!
Aqui vai o que recebi!

"Cara Maitê,

Acabei de ver o teu vídeo a pedir desculpa aqui à malta de Portugal!!
Tudo jóia miúda.. já vi que és uma garota "légál" e brincalhona, por isso, sei que não levas a mal se te tratar por tu...já somos amigos!!
Sabes que há uns anos atrás, quando te vi pela primeira vez, soube logo que tu tinhas dois avôs portugueses!! Essa tua beleza tinha de vir de algum lado né?
Neste momento sinto-me envergonhado de nós (Portugueses) termos ficado tão ofendidos com aquele documentario!! Afinal de contas, o pessoal brazuca é show de bola.. é sempre em festa!! Qual é o problema de um grupo de brasileiras brincarem e gozarem com "gajos" como o Camões e o Vasco da Gama, escarrar para um lago de um Mosteiro que é património mundial, deitar a baixo uma pessoa que não sabia resolver um problema no computador, que pelo que entendi, tu também não sabias resolver ... qual é o stress?? Na boa, tudo "légál", show de bola garota...

Sabes o que me lembrei???
Até era giro a malta combinar, tu falares com esse teu amigo camera man e fazemos o seguinte: Eu levo daqui o Rui de Carvalho (um conceituado actor aqui de Portugal) aí ao Brasil e a malta faz um filme caseiro com este guião:
1º Filmamos o Rui a mijar para os pés do Cristo Redentor e a fazer um V de Vitória como que a afirmar : "estou-te a mijar para os pés e tu não podes fechar os braços para me impedir... estás a ver quem manda ó 7ª maravilha do mundo??"
2º Outra imagem era o Rui num restaurante a fazer o seguinte pedido: "Oh garçon, arranja-me aí uma dose de Presidente recheado com arroz de coentros (caso não tenhas entendido ele iria pedir Lulas recheadas)..."
3º Também era "légál", o Rui gozar um bocado com a vossa história, mas infelizmente, não vai dar porque não é fácil encontrá-la... Espera lá! Já sei... arranjamos um barco e o Rui veste-se de conquistador Português a desembarcar no posto 9 em ipanema gritando o seguinte: "quem sois vós minhas popozudas de fio dental?? e vós seus boiólas de sunga?? Que estaides a fazer assim vestidos na terra que eu descobri??? ide-vos vestir e de seguida ide trabalhar para os campos a apanhar cana de açúcar que é para isso que vocês servem!! (esta é show, não é Maitê??)
4º Para acabar, o Rui faz um discurso à frente da estátua do Pélé a dizer: "sabem para que é que este "preto" era bom?? para limpar os escarros que os vigaristas dos brazucas mandam para os lagos dos nossos mosteiros lá em Portugal!"

Vôcê curtiu a ideia Maitê??? Pensei que seria falta de respeito e de educação fazer uma coisa deste género de um país que não é o meu, mas afinal, é uma coisa normal como tu dizes.. é brincadeira.. isto há brincadeiras do carago (como se diz no norte cá da terra)!

Ah é verdade... muito importante...Depois vendemos isto à rede Globo e eles transmitem isto em horário nobre... Aposto que o Brasil vai ficar inundado em lágrimas de tanto rir!! Afinal de contas como tu disseste, o povo brasileiro, é muito brincalhão! De certeza que vai aceitar que um "manézinho" vá aí à tua terra gozar com a tua pátria!!

Um beijo pá..

E aparece mais vezes cá em Portugal. Tenho uma brincadeira que adorava fazer contigo, mas não te conto agora... pronto está bem, eu conto... era esfregar 3 pasteis de nata (aqueles que tu comeste) na tua cara!! Deve ser mesmo o teu género de brincadeira... afinal de contas tu és tão bem humorada! É verdade, traz as tuas amigas do programa porque há pasteis para todas!!

Beijos pá

Frederico

Nota: Usei o nome de Rui de Carvalho sem qualquer desrespeito à sua pessoa, antes pelo contrário, é um símbolo do nosso país daí ser a pessoa exacta para ironizar esta situação.
Outra chamada de atenção que quero fazer, será o facto de usar a expressão "preto" no ponto 4º. não terá qualquer intenção racial subjacente ...será uma forma de ironizar a desplicência com que Maitê trata de alguns temas. Longe de mim querer magoar qualquer tipo de raça..."

quarta-feira, outubro 14, 2009

O caso das toupeiras ou, porque se deve registar um animal para não sofrer consequências

Tonho Semanas sempre se dera bem com todos os vizinhos e com quem ele se cruzava.
Quer fosse na rua, no trabalho, na praia ou até mesmo num restaurante ou numa partida de futebol.
Contavam-se pelos dedos de uma mão os inimigos que tinha tido ao longo da sua vida.
E, atenção, que Tonho tinha a falta de um dedo na mão direita!
Era um indivíduo daqueles que, onde quer que estivesse, criava uma aura positiva, de felicidade e boa disposição.
Talvez por isso lhe tenham colocado a alcunha de brincalhão alegre.
Ou palhaço alegre pelas costas, como alguns “amigos” diziam.
Mas ele não se importava. O que queria era ser feliz e fazer os outros felizes. Adorava fazer bobagens, palhaçadas para que se rissem e o vissem como um tipo bonacheirão e contente com a vida.
Os vizinhos costumavam dizer que a casa dele parecia um circo, tanta a brincadeira e alegria que de lá emanava.
Como tinha um jardim adorava fazer pequenas peças de teatro para os filhos dos vizinhos, mas os pais acabavam por vê-las também, já que gostavam de ver Tonho Semanas a imitar vozes como se de um verdadeiro artista de teatro fosse. Era um dom que tinha, mas nunca teve a sorte de ser descoberto por alguém.
Mas isso nunca o incomodara. Sentia-se feliz com a vida e isso é que era importante.
Seguia a vida sem que ninguém o importunasse, até que um dia tudo mudou.
Quando viu aquele homem fardado a tocar à porta da sua pequena quinta, nunca pensou no que o destino lhe reservara!
- Boa tarde, presumo que seja o Senhor Tonho Semanas, correcto?
- Sim, senhor. Mas entre, entre – disse abrindo o portão de par em par para que o agente da lei pudesse entrar.
- Obrigado, senhor Tonho! Presumo que saiba ao que venho!
- Hmmm, não! Sinceramente não, mas de certeza que me vai dizer.
- Pois claro, pois claro. Quero que saiba que nos chegou ao conhecimento de que o senhor possui toupeiras no seu jardim. Foi um vizinho seu que o comentou no café da vila.
- Sim, é verdade! Já tentei fazer alguma coisa, mas não consegui nada. Estão sempre a esburacar-me o relvado todo. Já não é a primeira vez que alguém se magoa.
- Pois, mas isso não é do nosso interesse. O que nos preocupa é que as toupeiras não estão registadas.
- Desculpe?!?!?!?!?!
- Não estão registadas. Com a nova lei, que saiu esta semana, o senhor tem de registar as toupeiras que se encontram no seu jardim e, mais importante, não pode adquirir novos espécimes, com o risco de ser preso. Sim, porque multado já o vai ser!
- Mas isto é de loucos!
- O quê!!!!
Ao ouvir isso, o agente da autoridade sacou do telemóvel e ligou para a Central.
- Atenção. Temos um 665. Temos um 665.
Ainda Tonho Semanas não tinha tido tempo de acabar uma frase com o tempo de duração do muito célebre “o rato roeu a roupa do rei da Rússia” já os agentes da autoridade o levavam preso e devidamente algemado.
Ainda contratou um bom advogado da praça, mas sem o saber o dito advogado era um acérrimo defensor dos direitos dos animais e não o ajudou, subtilmente, em nada, tendo Tonho Semanas sido acusado de posse ilegal, maus tratos, tráfico e escravatura de animais exóticos para fins ilícitos.
Foi parar a uma prisão de Alta Segurança e só de lá saiu meses depois para ser encaminhado para um hospital psiquiátrico, por lhe ter sido diagnosticado insanidade mental.
O Ministério, ao saber do sucedido, congratulou-se e deu como exemplo o caso de Tonho.
Entretanto as toupeiras proliferaram e dominaram todo o relvado de Tonho, tendo mesmo as mais antigas se mudado para dentro de sua casa.

Bazar de Verão




Mais um Bazar de Verão em que a Ana vai participar!
Não percam!